Em tão pouco tempo o Lar Possível já me rendeu várias alegrias. Uma delas foi poder conversar com uma pessoa muito criativa e inspiradora, a Jessica Behrens. Ela tem 23 anos, estudou na Universidade de Brasília e é a criadora do Tradr, aplicativo feito com apoio do Harvard Innovation Lab. É uma espécie de “tinder” do destralhe: ele exibe fotos de objetos e você diz se gostou ou não. A partir daí, pode negociar a venda ou doação com o dono do produto. Lá tem de tudo; roupa, sapato e acessórios. Você pode delimitar um raio de busca e ver apenas peças localizadas na sua região.

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Entrei em contato com a Jessica e ela topou responder algumas perguntas para o blog. O resultado é essa entrevista incrível que nos inspira a repensar a relação com o consumo.

O que despertou você para esse processo de destralhe?

Eu estava em uma crise existencial. Me sentia perdida dentro da minha própria vida. Estava terminando a universidade e tava vivendo a famosa crise de fim de curso. Não sabia o que fazer. Aí decidi me desfazer. Esse processo de destralhe foi um movimento muito mais profundo, bem filosófico e existencial mesmo. Queria descobrir o que era importante na minha vida. Mas aí como começar? Decidi começar pelos objetos. Fiz o desafio de me desfazer de uma coisa por dia durante um ano para no final ter 365 coisas a menos. Assim ia começar a perceber o que era e o que não era importante em minha vida. Aos poucos o mundo externo iria invariavelmente refletir no meu mundo interno. Foi uma espécie de ritual.

Antes do Tradr você já tinha o costume de comprar ou trocar peças usadas?

Eu sempre gostei de brechó e feira de trocas. Todo ano organizo um encontro com as amigas no qual todas levamos tudo que não queremos mais e trocamos. Sempre gostei mais da experiência que uma roupa ou uma peça traz do que a coisa em si. Aí realmente não faz diferença ser nova ou usada, a experiência de usar será nova e genuína mesmo assim. Aí junta isso com o fato de ser mais barato e melhor pro meio ambiente. Acho mais divertido e inteligente. Essa prática é mais comum na Europa, mas tem se popularizado cada vez mais no Brasil, principalmente agora por causa da crise econômica. Para muitos passa a ser uma forma interessante (e necessária) de economizar ou fazer uma grana vendendo o que tá acumulando poeira no armário.

Sua relação com o consumo mudou depois do trabalho com o Tradr?

A minha relação com o consumo mudou muito quando eu tinha 19 anos e mochilei durante nove meses por 16 países. Antes eu era aquele tipo de pessoa que abria um guarda-roupa abarrotado de roupas e falava que não tinha nada pra vestir. Quando decidi viajar, fui sozinha e com pouquíssimo dinheiro. Andava muito e pegava só transporte público. Era só eu e minha mochila. Aí só podia carregar o que conseguia colocar nas costas (literalmente). E sabe o que aconteceu? Não reclamei um dia sequer que não tinha o que vestir. Comecei a perceber que a minha felicidade estava em aprender, me aventurar pelo mundo e conhecer pessoas incríveis. Não tinha nada a ver com ter muitas coisas.
Hoje com o Tradr a minha atitude continua a mesma, mas agora, ao invés de sair de casa para ir garimpar, eu apenas abro o app. Entretanto, o meu nível de consciência mudou. Antes eu tinha uma perspectiva bastante individual. Agora eu adquiri um olhar coletivo. Comecei a realmente me conscientizar a respeito do impacto social e ambiental que as nossas decisões de consumo causam. É preciso pensar além do quê consumidor. Como consumimos? Que contexto e situações alimentamos a partir disso?

Como saber que chegou a hora de vender/doar uma peça?

Se não usamos ela há mais de um ano, muito provavelmente tá na hora de deixar ir. Duas coisas boas acontecem nessa hora: damos um lar mais feliz e movimentado pro que não usamos mais e também cedemos espaço pra algo que possa ser mais útil em nossa vida

O minimalismo também funciona para outras áreas da sua vida, como o trabalho?

Eu tento aplicar o minimalismo para todas as áreas, mas no trabalho anda difícil (risos). O Tradr está crescendo muito rápido no Brasil e principalmente nos Estados Unidos. Temos muitos desafios e muito trabalho pela frente. Mas agora com tanta coisa pra fazer, vejo que se torna ainda mais importante me organizar para ter a clareza e a sabedoria para tomar as melhores decisões. E o minimalismo me ajuda bastante nisso. Sempre que sinto que algo está bloqueado, abro mais espaço pra ter mais movimento. Afinal, sem movimento não há dança. 🙂

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Beijos!

1 comment on “Tradr: a ajuda que faltava para o destralhe”

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